A Essência do ser humano

Uma pedra nasce e cresce de fora para dentro, num processo que leva milhões de anos. Ela se encontra aquietada, dentro de seus limites, naquilo de que é constituída, tendo como característica a sua rigidez. Uma flor, mesmo que seja inspiração para as mais belas poesias, também manifesta um movimento limitado e suas pétalas podem vir abaixo por alguém que queira verificar se "o bem" ou se "o mal lhe quer". Já o ser humano não se aquieta no constituído e nem nos próprios limites. Ele se coloca como um projeto num processo de crescimento que se dá de dentro para fora, ao mesmo tempo em que os condicionamentos culturais e sociais do espaço e do tempo constituem para ele uma camisa de força para que seja moldado de acordo com os padrões existentes.
Diz Erich Fromm que "O homem era - e ainda é - facilmente seduzido para aceitar determinada forma de ser humano como sendo a sua essência. Mas a essência do ser humano não se define pela sociedade com a qual se identifica. Os grandes homens e mulheres foram aqueles que visualizaram algo que é universalmente humano".
Na sociedade grega da era clássica, em que se buscava uma auto-compreensão fundamentada na razão, o ser humano passou a ser entendido como Homo sapiens, ou seja, aquele que ultrapassa o nível do senso comum, das opiniões enganadoras, para chegar ao conhecimento das coisas como elas realmente são.
Já a busca de uma auto-compreensão da sociedade moderna em seu nascedouro se fundamenta no conhecimento fundado na experiência do que é tangível, manipulável, ou que esteja ao alcance dos sentidos. O ser humano moderno, no afã de fazer coisas, de se apropriar delas e de acumulá-las, chegou a definir a sua essência pela sua atividade industriosa, transformando-se no Homo faber. Mas, considerando-se que a sociedade industrial dos dois últimos séculos, que estabeleceu a globalização como meio eficaz para estabelecer o mercado de consumo, criou como mecanismo de controle da mão-de-obra um exército imenso de desempregados ou de pessoas que não se situam na esfera do mercado, a essência do ser humano não pode ser o que ele faz, nem mesmo no âmbito da sociedade industrial, visto que, dessa forma, a maioria dos povos da África, Ásia e América Latina estaria excluída dessa noção de humanidade.
As sociedades antigas e medievais formavam uma totalidade em que os indivíduos, integrados nos sistemas sociais existentes, nem sequer se percebiam como tais, uma vez que a consciência que se podia ter era a de uma existência associada à grande família, à religião, às normas estabelecidas e que muitas vezes eram vistas como de ordem natural ou divina. Já os teóricos liberais fazem da individualização do ser humano um dos fundamentos da sociedade moderna, juntamente com a propriedade, a liberdade, a igualdade e a democracia. Mas ao mesmo tempo esses teóricos escondem o fato de que a essa noção de humanidade não diz respeito à maioria dos indivíduos dessa sociedade, formada por aqueles que trabalham sem ter para si a recompensa proporcionada pelos frutos desse trabalho, que vão cair nas mãos de grupos que deles se apropriam e deles fazem seus instrumentos de poder.
A sociedade contemporânea é uma sociedade onde as ideologias buscaram camuflar a verdadeira essência do ser humano. Segundo Hannah Arendt, "... o pensamento ideológico emancipa-se da realidade que percebemos com os nossos cinco sentidos e insiste numa realidade 'mais verdadeira' que se esconde por trás de todas as coisas perceptíveis, que as domina a partir desse esconderijo e exige um sexto sentido para que possamos percebê-la". 
Este sexto sentido é fornecido pela doutrinação ideológica presente nas instituições educacionais e particularmente nos meios de comunicação de massa, em que se faz de tudo para "libertar o pensamento da experiência e da realidade" procurando sempre injetar um "significado secreto" em cada evento público e farejar "intenções secretas" atrás de cada ato político, de tal forma a fazer acreditar que aquilo que se diz da realidade seja o que realmente é.
E a tendência dos indivíduos, perdidos no meio da massa, é deixar-se conduzir pela maioria, escondendo-se atrás de uma essência que não lhes pertence, uma vez que é determinada pelos condicionamentos socioculturais. Jung explica tal fenômeno com as seguintes palavras: "O movimento de massa resvala, como se pode esperar, do alto de um plano inclinado estabelecido pelos grandes números: a pessoa só está segura onde muitos estão; o que muitos acreditam deve ser verdadeiro; o que muitos almejam deve ser digno de luta, necessário e, portanto, bom; o poder se vê forçado a satisfazer o desejo de muitos. Mas o mais belo mesmo é escorregar com leveza e sem dor para a terra das crianças, sob a proteção dos pais, livre de qualquer responsabilidade e preocupação. Pensar e preocupar-se é da competência dos que estão lá no alto; lá existem respostas para todas as perguntas e necessidades. Tudo o que é necessário encontra-se à disposição. Este estado onírico infantil do homem massificado é tão irrealista que ele jamais se pergunta quem paga por esse paraíso. A prestação de contas é feita pela instituição que se lhe sobrepõe, o que é uma situação confortável para ela, pois aumenta ainda mais o seu poder. Quanto maior o poder, mais fraco e desprotegido o indivíduo". 
A massificação, ainda segundo Jung, abre o caminho para a tirania, que se sente mais livre na escolha de seus métodos do que a instituição que tem que dar explicações ao indivíduo. Com a tirania, sempre imoral e perversa, a liberdade do indivíduo se transforma em escravidão física e espiritual.
Indivíduos que promovem a tirania são imaturos e fazem da força seu mecanismo de defesa. Às vezes eles cedem diante da pressão dos grupos que defendem a cidadania, ou seja, a emancipação dos indivíduos, mas buscando sempre canalizar as consciências dos indivíduos para o âmbito das massas, para que eles não tenham pensamento próprio e façam de seu pensamento uma continuidade daquilo que já está posto e determinado de cima para baixo.
A realidade é, contudo, dinâmica e o seu dinamismo se explica pelo fato de que por trás de cada indivíduo, há um ser humano que, pela sua natureza, é um ser que se lança a caminho, sempre irrequieto, em busca da realização de seus desejos. Se a realidade é desfavorável aos indivíduos e lhes apresenta barreiras que lhes parecem intransponíveis, a tendência desses indivíduos é caírem num estado de frustração, desespero, agressividade. Mas também podem despertar a sua consciência adormecida e encontrarem na esperança, que é um dos elementos essenciais da humanização de nosso ser, a força para viver e construir um mundo novo, sabendo que, para essa construção terá de enfrentar a realidade presente que é o seu ponto de partida. Pois, como diz Ralph Linton: "Durante a vida do indivíduo jamais termina o processo da criação e integração das novas reações e de extinção das antigas. Sem essa flexibilidade seria impossível ao indivíduo sobreviver em um mundo em que tanto o meio ambiente externo, como as suas próprias potencialidades se encontram em constante fluir".
O amadurecimento do ser humano consiste na descoberta e na vivência de sua verdadeira essência que está na integração de suas dimensões física em que se situam os cinco sentidos; intelectiva, pela qual se chega à compreensão do âmago das coisas;espiritual, que nos abre para o transcendente e nos possibilita acolher as imperfeições e limitações de nossa vida para remetê-las à totalidade; e social, que nos coloca, desde o nascimento, em relações com os demais seres humanos, dando-nos a consciência de que não podemos viver isolados e de que a nossa sobrevivência depende, e muito, dessas relações com os nossos sócios. Na maioria das vezes essa relação que se dá na vida em sociedade é conflitiva. Mas é nas situações de conflito que nos colocamos diante dos limites de nossa humanidade para poder superá-los e assim chegarmos ao amadurecimento individual e social.

Comentários

Della disse…
Marcos, realmente um texto que nos faz refletir sobre cada situação em nossa vida. Realmente após passarmos uma situação difícil, se fizermos o nosso melhor, perceberemos que o que é verdadeiro permanece ainda mais forte.Parabéns pelo texto! Beijossssssssssss
Jackie Freitas disse…
Olá meu querido amigo!
Belo texto! Em sua trajetória, o homem mesmo tendo a suposta "evolução" ao seu favor, subiu degraus que o levam aos patamares da própria contradição. Evoluiu por um lado, mas perdeu-se ainda mais em outros. Ainda não consegue compreender que os seus instintos básicos e primordiais, norteiam o caminho. Quis pegar um atalho e deixou de aprender as mensagens que continham ao longo do percurso. Hoje, busca tirar dúvidas, aliviar sua consciência, sem perceber que as respostas estão e sempre estiveram dentro de si. Evoluir, para o homem, significou perder algo que ele próprio nunca chegou a descobrir.
Grande beijo,
Jackie