Insatisfações


Por melhores que estejamos, parece que estamos sempre buscando padrões, perfeições que não existem. por que estamos sempre insatisfeitos?

A frase acima é de um velho mestre de quem tive o privilégio de ser aluno-assistente no curso de medicina. Descendente de libaneses, admirador do poeta Gibran Khalil Gibran, o professor Jorge Karam lecionava fisiologia humana, mas, nos anos em que privei de sua companhia, ele estava naquela idade em que os homens, naturalmente, afastam-se da fisiologia e aproximam-se da filosofia.
O conselho apareceu no meio de uma discussão em grupo sobre a insatisfação humana. Alguém havia perguntado por que o homem é um eterno insatisfeito, e eu emendei, tentando entender o que leva uma pessoa a acumular mais riqueza do que pode gastar no resto de sua vida, enquanto outros têm tão pouco que não conseguem garantir sua sobrevivência de amanhã. O que diferencia o milionário Jay Gatsby do pobre pescador Santiago, só para ficarmos no mundo da literatura americana, comparando o personagem de Fitzgerald de O Grande Gatsby ao de Hemingway, de O Velho e o Mar?
Eu estava naquela idade em que sobram perguntas e faltam respostas convincentes, e estas vêm principalmente daqueles que tomam atitudes mais radicais. Era mais fácil entender Guevara do que Gandhi. Ainda tínhamos o pensamento simples de resolver a desigualdade tirando dos que têm dando para os que não têm. Éramos Robin Hoods universitários, dispostos a mudar o mundo. Era correto odiar o arrogante Gatsby e amar o humilde Santiago.
O professor, então, com sua paciência árabe, explicava que realizar sonhos, construir carreiras e possuir coisas materiais são desejos absolutamente naturais, esperados e até necessários, pois deles nasce o progresso. O problema, dizia ele, só surge quando ambição vira ganância ou quando alguém é prejudicado. Fora isso, a insatisfação é benéfica e, se não existir, principalmente na juventude, alguma coisa vai mal em sua cabeça.
A abelha e a florEu me considerava um privilegiado, pois havia percebido, na rotina do hospital-escola, que tinha sido abençoado pela sorte. Em um país de deserdados, eu tinha saúde, inteligência, oportunidade. O contato com a doença que deriva da pobreza e da ignorância marcou meu espírito para sempre. Eu chegava ao ambulatório bem alimentado, bem dormido, bem amado, e encontrava gente faminta, doente, abandonada. Estas doenças não têm nada a ver com medicina, dizíamos, eu e meus colegas. Elas são doenças sociais.
O contato com a miséria estava fazendo com que eu questionasse meus sonhos de juventude. Eu estava diminuindo minhas ambições para, inconscientemente, nivelar-me com as pessoas que eu atendia e, dessa forma, sentir menos culpa. Sim, eu tinha razão quanto àquelas pessoas. Elas não eram doentes, apenas estavam doentes, como disse Monteiro Lobato referindo-se ao Jeca Tatu. E estavam doentes porque eram ignorantes, e eram ignorantes porque o meio onde nasceram e cresceram era pobre, desassistido, abandonado. Abandonado por quem? Ora, pela sorte, pelas autoridades, por Deus... sei lá. Então eu me achava meio responsável e meio culpado por aquela situação.
E meu mestre queria me mostrar que, sim, eu era parcialmente responsável, mas não era culpado. E a única coisa que eu podia fazer para minorar aquela situação seria cumprir com meu papel, minha responsabilidade de pessoa estudada, dotada do poder de tratar, acudir, ajudar, e, acima de tudo, ensinar. O que eu não podia, em hipótese alguma, era cair na armadilha da vitimização. E muito menos do apequenamento. Fazer-me de vítima ou diminuirme diante do sofrimento das pessoas não iria me ajudar a ajudá-las. Eu devia querer mais, até para estar melhor para lutar.
O mesmo Khalil Gibran disse: Para a abelha, uma flor é uma fonte de vida. Para a flor, uma abelha é mensageira do amor. Para ambas, dar e receber é uma necessidade e um êxtase. As pessoas que resolvem pouco querer da vida porque não consideram justo terem muito, enquanto outros têm tão pouco, colaboram tanto com o meio social quanto aqueles que querem tudo para si, sem se preocupar com os demais. O egoísmo faz uma pessoa querer só para si; o altruísmo leva a pessoa a querer para si e para todos. Ser altruísta não é privarse, é doar-se. E só doa quem tem o que doar, ou ainda, só se doa quem se tem.
A maneira mais simples de abordar o tema da insatisfação humana é equacionar a distância que há entre ambição e ganância. Explicar que ambição é um sentimento bom, pois ele promove o crescimento, a busca intelectual, a dedicação ao trabalho, a superação dos limites. E que ganância é uma qualidade deplorável, pois o ganancioso quer cada vez mais para si em detrimento dos outros. Ambos são eternamente insatisfeitos, e sempre acham que têm um destino maior. Só que o ambicioso quer chegar lá para se realizar e compartilhar, enquanto o ganancioso quer chegar primeiro para pegar a parte maior e não ter que repartir. O ambicioso constrói, o ganancioso destrói. A ambição pertence às qualidades do homem; a ganância, a seus defeitos.
Pode segurarO filósofo Mário Sérgio Cortella, em seu livro Não Nascemos Prontos (Vozes), ensina que o homem insatisfeito é o que tem o poder de provocar mudanças ao seu redor. A satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento, diz ele. Ele alega que não tem afeição pelos satisfeitos, pois a satisfação acalma, limita, amortece, e ele prefere os que estão em movimento, os insatisfeitos.
Felizmente a insatisfação é uma condição humana, pertence à categoria dos instintos de sobrevivência, e responde pela evolução. O satisfeito estanca, o insatisfeito galopa. Cortella cita Guimarães Rosa, que dizia que o animal satisfeito dorme, e por isso é morto pelo predador. A insatisfação do leão, por comida, espaço, fêmeas, lhe proporcionou a condição de rei da savana. Ele sempre quer mais. E é sua ânsia de querer que gera movimento em seu grupo e estimula tanto seu poder de caça quanto a atenção dos gnus e das zebras. Estamos, simplesmente, falando da evolução das espécies.
Entre os humanos, a insatisfação também provoca evolução. O satisfeito pára, o insatisfeito continua. Quem está satisfeito com seu desempenho no trabalho não trata de melhorá-lo. O homem que se sente satisfeito com sua relação amorosa interrompe o galanteio, a conquista, e dá início ao fi m. Quanto à mulher, a melhor é a insatisfeita, que deseja mais de seu companheiro, por isso o estimula e cresce com ele. A plenitude gástrica das relações provoca sono, o desejo de querer mais desperta.
Meu professor, ao comparar as pessoas que querem pouco àquelas que querem tudo, queria mostrar ao então jovem cheio de dúvidas e angústias que ser ambicioso, desejar da vida tudo o que ela pode oferecer, estar inconformado com o que se é e o que se tem é absolutamente salutar, especialmente na juventude. Errado seria nada querer, ou pouco desejar.
Portanto, a insatisfação é boa, o problema é a ansiedade que ela gera. É dela que nos queixamos e desejamos nos livrar. Mas, em nossa cabeça confusa, misturamos as coisas e achamos que a satisfação originada por uma diminuição nas expectativas diminuirá a ansiedade. Pode ser, mas, com o tempo, poderá gerar frustração, o que, convenhamos, é muito pior.
Pode empurrarSaiba que seu destino é traçado por seus próprios pensamentos, e não por alguma força que venha de fora. Seu pensamento é a planta concebida por um arquiteto para construir um edifício denominado prosperidade. Você deve tornar seu pensamento mais elevado, mais belo e mais próspero.
Essa frase pode ter um poder oculto. Ela nos leva a pensar que podemos ter mais do que temos hoje, e não só podemos como também merecemos. Que, a partir da maneira como organizamos nossos pensamentos, estruturamos a vida para conseguir retirar dela tudo o que ela tem para nos oferecer. A frase também sugere que há um jogo de forças entre o interior e o exterior de uma pessoa, e que a qualidade do pensamento, que é uma força interna, é o que dará o tom de seu destino. Insiste na idéia da prosperidade, mas a vincula à beleza e à elevação das pessoas.
Trata-se de uma frase que pode tirar uma pessoa do conformismo, da passividade, e levá-la a acreditar que a todos nós é dado o direito de querer mais, de ser ambicioso, insatisfeito. Ela nos diz que quem está satisfeito se deixou vencer pelo que vem de fora e entregou seu destino aos outros, ao sistema, e abdicou do controle sobre sua própria vida.
Há frases que são assim. Nos fazem pensar e sentir, e custam a desgrudar de nosso cérebro. Em geral são pronunciadas por pessoas insatisfeitas, pois os satisfeitos estão gozando sua satisfação e não têm tempo nem necessidade de pensar, quanto mais construir idéias de mudança.
A frase em questão não é de nenhum escritor de livros de auto-ajuda, nem de um guru do mundo dos negócios. Seu autor, entretanto, foi um homem altamente inconformado com sua vida e com a vida de seu povo. Seu nome era Martin Luther King. E olhe só o legado que esse insatisfeito deixou com seu sonho de mudar o mundo.



Eugenio Mussak



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