O Velho Jardineiro




"O Velho Jardineiro, cuidava diariamente de um belo jardim chamado Jardim Absorto... Exigente... Erva daninha não permitia ali. Além do jardim, logo perto, quase que ligado um no outro, havia o Jardim Receptivo. Que muito florescia e encantava o Velho Jardineiro(que cuidava dos dois jardins) com suas cores espetaculares.

Embora fizesse diariamente seu serviço com muito mimo, zelo e renitência. Sempre que refletia, (e o jardineiro gostava de refletir sobre a vida) acreditava ser o Jardim Receptivo a razão de seu viver, sua grande alegria. Enquanto dispensava seu desvelo ao Jardim Absorto, imaginava que tudo em sua vida se resumia a estudar o Receptivo. O motivo de sua existência era sem dúvida o Jardim Receptivo.

Muitos dias se passaram desde que o Jardim Absorto foi confiado ao velho jardineiro e sem motivo algum aparente, o Jardim Absorto adoeceu de uma praga desconhecida. O Jardineiro, procurou especialistas, seguiu suas orientações com diligencia, sempre na esperança de que conseguiria combater a tal praga. 
Houve noites em que o Jardineiro chegou a dormir com as plantas do jardim em seu colo. O Velho Jardineiro não reclamava, só desejava que o Jardim Absorto ficasse bem e se possível curado. Preocupava-se em ter que deixar o Jardim Absorto, só e doente. Por esta preocupação e também por muito de seu otimismo, se empenhava cada dia mais em seus cuidados. Além do mais o Jardim Receptivo estava ali para apoiá-lo com sua exuberante beleza. Mas o Jardim Absorto, precisava de espaço e mais do nitrogênio que o cercava e mesmo após uma melhora significativa, ele voltou a ser afetado pela praga que nunca havia sido curada.

Suas flores... Dálias, roseiras, lírios, margaridas e tantas outras, morreram. Suas plantas... Avencas, alefandras, bromélias, etc... Secaram. O Jardim Absorto embora regado diariamente, secou de tal forma que uma bituca jogada por acaso, o fez incendiar e de vez morrer. O Velho Jardineiro, chorou, sofreu e muito se deprimiu.

Durante um tempo o Velho Jardineiro, se apegou ao Jardim Receptivo numa tentativa inútil de se restabelecer. No Jardim Receptivo não havia nenhum tipo de planta medicinal e o Velho Jardineiro não obteve o que desejava ali.

O Velho Jardineiro, que sempre refletia sobre a vida, não entendia a dor sentida, e por algumas vezes pensava no cessar de seu viver. Até que numa de suas reflexões chegou a uma análise. A razão de seu viver não era o Jardim Receptivo e sim o Jardim Absorto. Pois era no Jardim Absorto que o Velho Jardineiro, dispensava o melhor de si. Todo seu empenho, todo seu ardor, estava no desenvolver do Jardim Absorto. E ao chegar a esta conclusão o Velho Jardineiro se sentiu vazio e percebeu a necessidade de se preencher das funções de cuidar de outros jardins, ou flores que fosse."

A maioria de nós humanos, acreditamos que não estamos aqui por acaso. E esta grande maioria busca em suas vidas, uma razão para aqui permanecer. Muitos são os jardins de nossas vidas, muitos os contratempos e muitas as nossas crenças. 

Mesmo que nos dediquemos com fervor a uma única experiencia. É ali que está nossa essência... Naquilo que acreditamos e nos empenhamos a digerir. Embora existam inúmeros jardins a nossa volta, sempre nos dedicamos há um em especial, algumas vezes, não por paixão, não por obrigação. É como se fossemos feitos para aquela função. Algo que nos cai, como quando vamos as compras e escolhemos o que nos veste bem, mesmo que achemos a outra peça mais bela, não ousamos e ficamos com a que nos cabe. É como se fossemos selecionados e pré-determinado a algo.

A pergunta que gostaria de fazer é: 
Você sabe onde está a razão de seu viver? Tem cuidado de algum jardim específico? Você tem percebido, reconhece que a razão de sua vida está nas incumbências que lhe cabe cumprir? Nem sempre a razão de nossa existência é aquela que reconhecemos como tal. Muitas vezes o sentido, que nos impulsiona está naquilo que nos move, não naquilo que nos encanta ou que nos fascina. Se acreditarmos que estamos aqui apenas para desfrutar de um paraíso, nos enganamos. Os paraísos sempre existiram e estarão sempre há nosso alcance, como forma de nos recarregar, para aquilo que realmente é a razão de nosso viver. E se você sonha em uma passagem só de ida ao Paraíso. Te pergunto: O cessar de tudo que acreditamos esta num gramado sempre verde... e nada ha fazer?

Rosangela Ataíde

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